Ouvimos Antes - Móveis Coloniais de Acaju
Fonte: TramaVirtual | Autor: Claudio Szynkier | Data: 06/04/2009
É bom dizer antes de desenvolver este texto que, embora estejamos lançando o disco, não temos obrigação, na TramaVirtual, de adotar uma postura acrítica, carnavalesca, puxa saco em relação ao novo trabalho do Móveis Coloniais de Acaju, C_mpl_te. Chegar aqui e fazer um estardalhaço artificial sobre uma banda incrível e sobre um puta álbum. O que o álbum é, é o que o álbum é, e essa coluna tenta traduzir a visão mais fiel a isso de uma forma antecipadora, e é isso que dá todo o sentido a ela.
Imagino, no entanto, que C_mpl_te será altamente celebrado pela mídia de música no Brasil. Por dois motivos: um deles é a carência latente em relação a bandas atuais e emergentes que pratiquem um rock que seja pop e ao mesmo tempo convincente, não-descartável. O outro: o disco propõe, não caminhos novos, mas um frescor raro na música pop brasileira, almejando nitidamente uma perfeição estilística que Brian Wilson, Sondre Lerche, Jeff Buckley, Guilherme Arantes e Stuart Murdoch já almejaram um dia.
Uma perfeição que, em seus códigos e atos práticos, se comunica fácil com as sensibilidades: percebemos quando os brasilienses apresentam o disco com um "Adeus" que os arranjos são experimentais até o ponto de alcançarem uma atmosfera leitosa, de chantilly sonoro. Gostosa, portanto. O balanço naturalmente injetado pela coluna de sopros da banda se confunde com a satisfação bêbada que refrões gordos perfeitos de "Descomplica", "Pra Manter ou Mudar" e "Café Com Leite", por exemplo, proporcionam. No fone de ouvido, com as sutilezas governadas pelo produtor Carlos Eduardo Miranda, tais sensações ainda se amplificam. Miranda junta e coordena mais de nove instrumentos por faixa de uma maneira a compor de fato algo como se fosse um bolo ultracalórico de vários recheios diferentes. E dá certo.
Mais credenciais para essa celebração e até messianização pela qual pode passar a banda estão no carisma de seus integrantes e no fato de sua sonoridade, de alguma forma, poder continuar a missão, a cruzada musical adolescente do Los Hermanos em 2002, 2003, que, querendo os cariocas ou não, zelava pela reforma do gosto sonoro comum de toda uma geração de jovens (que estava a fim disso). Os Móveis de fato, querendo ou não seus integrantes, podem ser, via mídia e não só, alçados à posição de donos novos desse velho cajado: a banda popular jovem do Brasil por excelência. Um país que de certa forma ainda não abandonou os anos 80, sua cultura iconológica e quer permanecer/ voltar a ele.
Se às vezes o disco, com e através das mesmas qualidades que possui, soa redundante e até desesperado em firmar um diálogo pleno e irresistível com seu eventual público, e fica aí o caso das canções do terço final e mais ska-pop de C_mpl_te ("Falso Retrato", "Cheia de Manha", "Sem Palavras", e "Indiferença", que termina grandiosa), resta-nos a compreensão: apesar de tanto a ser dito e de tanto que deve (falamos de probabilidade) ser celebrado em torno da banda de Brasília, trata-se de uma carreira apenas iniciante. E muito pode vir pela frente.
O disco chega oficialmente ainda neste mês pelo projeto Álbum Virtual.